"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Thomas Müntzer e a revolta camponesa

Texto 1. Thomas Müntzer foi, a princípio, um discípulo de Lutero e por este nomeado pastor. Müntzer, exaltado e violento, logo ultrapassou as ideias do mestre. Com um grupo de seguidores, deixou de se apoiar nas Escrituras e passou a se orientar pela voz do Espírito que dizia falar dentro dele. Retomando tradições antigas, a firmava que o fim do mundo se aproximava, que era preciso formar comunidades de eleitos para aguardar esse momento. Pregava também a revolução social, a luta contra os senhores e os príncipes, em favor dos camponeses. "Todos os bens devem ser divididos entre todos", afirmava Müntzer ao reivindicar uma reforma agrária, a abolição do trabalho servil, dos privilégios e dos impostos.


Thomas Müntzer, Escola alemã.

Os partidários de Müntzer foram expulsos sucessivamente de várias localidades até se estabelecerem, em 1525, na cidade de Mühlhausen e tornarem-se os líderes do movimento camponês na região. Depois de alguns meses de luta, o pequeno exército rebelde foi destruído. Müntzer, capturado, foi torturado e executado em público. (VEIGA, Luiz Maria. A Reforma Protestante. São Paulo: Ática, 1990. p. 28-29.)

Texto 2. Enquanto no campo católico conservador se agruparam todos os elementos interessados na conservação do que existia, quer dizer, do poder imperial, dos príncipes eclesiásticos e parte dos seculares, dos nobres ricos, dos prelados e do patriciado das cidades, a reforma luterana burguesa e moderada agrupa os elementos opositores bem instalados na vida: a massa da pequena nobreza, a burguesia e até parte dos príncipes seculares que queriam enriquecer arrebatando os bens do clero e que aproveitaram esta oportunidade para conseguir independência maior do poder imperial. Os camponeses e plebeus por fim formaram o partido revolucionário, cujo porta-voz mais ardente foi Thomas Müntzer.

[...] Ao estourar a guerra camponesa em regiões onde os príncipes e a nobreza eram na maioria católica, Lutero logo assumiu uma atitude conciliadora. Arremeteu contra os governos atribuindo-lhes a culpa da insurreição que, segundo ele, era devida à opressão que exerciam. Para ele, não eram os camponeses que opunham resistência: era o próprio Deus. Por outro lado, a sublevação era também ímpia e contrária ao Evangelho. Finalmente aconselhou ambas as facções a fazerem concessões e se reconciliarem [...].

A Lutero, reformador burguês, oponhamos Müntzer, revolucionário plebeu [...].

[...] Em 1522 fez-se pregador em Alstadt. Ali começou a reformar o culto. Suprimiu completamente o uso do latim, antes de Lutero se atrever a fazê-lo, deixando que se lesse a Bíblia inteira e não somente as epístolas e os evangelhos de rigor no culto dominical. Ao mesmo tempo organizava a propaganda na região. O povo acudia de toda parte e Alstadt veio a ser o centro do movimento anticlerical popular em toda a Turíngia.

Müntzer continuava sendo o teólogo, seus ataques dirigiam-se quase exclusivamente contra o clero. Porém, não propugnava a discussão pacífica e o progresso legal como já o fazia Lutero. Saiu, pelo contrário, pregando a violência, conclamando à intervenção armada contra os padres romanos. (ENGELS, Friedrich. As guerras camponesas na Alemanha. São Paulo: Grijalbo, 1977. p. 37-49.)

NOTA: O texto "Thomas Müntzer e a revolta camponesa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

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