"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O legado da América pré-colombiana

Etnias. Sala de Etnografia. Museu Nacional de Antropoligia (México), Fernando Franciles

[...] Tanto na perspectiva espacial como na temporal, a influência do Novo Mundo, isolado das correntes históricas da Eurásia, durante longo período, é marcante. [...]

Do contato, ainda que superficial, com o Continente descoberto surgiu uma verdadeira revolução nos conhecimentos geográficos dos europeus que ouviam admirados a descrição do Novo Mundo. Todo o edifício de conhecimentos geográficos tinha que ser reconstruído a partir de seus fundamentos.

[...] o milho transplantado para a Espanha já na primeira viagem de Colombo e que “encontrou um meio favorável nas regiões ensolaradas de Castela; seu cultivo desenvolveu-se rapidamente e se difundiu em pouco tempo para o Leste, nas outras penínsulas mediterrâneas”. Ao lado das plantas alimentícias deve-se lembrar as plantas medicinais. Várias expedições foram organizadas com o fim de recolher essas plantas, que foram aclimatadas em jardins botânicos como, por exemplo, o criado em Veneza em 1533.

Vaillant sublinha um interessante legado da América pré-colombiana aos povos conquistadores e colonizadores do Novo Mundo: “pode-se indagar se a ocupação europeia teria tido o sucesso que conhecemos sem o trabalho preliminar executado por esses primeiros ocupantes que valorizaram os recursos do Continente”. Inegavelmente civilizações como a dos Astecas e dos Incas forneceram aos conquistadores e colonizadores espanhóis um importante substrato material. “Os refugiados políticos que colonizaram o litoral atlântico dos Estados Unidos foram aprovisionados de víveres graças aos modestos talentos agrícolas das tribos indígenas vizinhas: isto permitiu-lhes sobreviver até o dia em que puderam atender por si mesmos as próprias necessidades e organizar-se em coletividades autônomas”. Chaunu chama a atenção para o legado da América recém-descoberta à economia mundial: “O aproveitamento pela Europa, dos lazeres de 10 milhões de índios, camponeses do milho, foi para a economia mundial, então em construção, um ganho incalculável de poderio, um ganho de poderio igual a muitas dezenas de milhões de homens cultivadores do trigo e do centeio”.

[...]

Vale aqui reproduzir as expressivas considerações de Meggers: “Mas se penetrarmos além das aparências, torna-se claro que a civilização moderna seria diferente sem as descobertas dos índios americanos. A borracha, um ingrediente crucial em milhares de inventos, desde os aviões supersônicos até os pneus, é uma planta do Novo Mundo. O fumo, que traz satisfação para pessoas de quase todas as partes, foi domesticado nas Américas. O chocolate, um dos doces mais populares no mundo, era uma bebida asteca. O milho (cereal) em centenas de variedades, é a base econômica de milhões de pessoas e a fonte alimentar de outros milhões, desde os fabricantes de cereais e produtores de ração animal, até os vendedores de pipoca no circo. A batata tornou-se tão importante na Inglaterra que se chama “batata-inglesa”, embora fosse domesticada nos Andes. Castanhas e amendoins, abacates e abacaxis, feijões e abóboras, batatas-doce, mandiocas, tomates e pimentões estão entre algumas das plantas americanas incorporadas à dieta alimentar em todas as partes do mundo. Milhares devem sua saúde e mesmo suas vidas à quinina e à cocaína, que foram descobertas pelo indígena sul-americano”.

Vaillant, na mesma linha de raciocínio, enumera algumas plantas cultivadas pelos Astecas e materiais utilizados acrescentando: “Entretanto a lista reduzida que acabamos de citar permite já medir a dívida de reconhecimento que contraímos para com esta civilização desaparecida. A lembrança dos primeiros inventores, dos primeiros inovadores, perdeu-se na noite da pré-história americana, mas nossa economia moderna beneficia-se ainda hoje dos frutos de sua engenhosidade”.

A América pré-colombiana está bem presente no mundo contemporâneo pela existência de milhões de descendentes dos povos pré-colombianos que constituem porção apreciável de numerosas nações americanas. “Hoje, o índio é tanto um fato cultural, social e lingüístico quanto antropológico”.

Índios do Nordeste do Brasil. Foto: Agência Brasil, Tetraktys

Além da permanência física dos descendentes dos pré-colombianos (muitos dos quais ainda conservam sua própria língua), constitui um testemunho eloqüente da influência indígena a inserção e aceitação de grande número de vocábulos no léxico das línguas dos conquistadores. Lathrap dá-nos um exemplo da difusão e influência de línguas indígenas: “Depois do araucano, o tupi-guarani é o grupo lingüístico de mais vasta difusão da América do Sul. Na época dos primeiros contactos com os europeus, os povos de línguas tupis-guaranis eram muito numerosos e encontravam-se em rápida expansão para zonas ocupadas por grupos vizinhos. Embora o número de indivíduos que falam estas línguas tenha diminuído extraordinariamente no decurso dos tempos históricos, elas influenciaram muitíssimo o vocabulário da língua portuguesa falada no Brasil, e o guarani é ainda uma das duas línguas oficiais do Paraguai”. Ainda no campo lingüístico, a toponímia evoca, através de toda a vasta extensão do Continente Americano, às vezes num passado já distante, não raro com uma extensão cheia de poesia, a presença do indígena americano.

Outro aspecto interessante e bem vivo da presença indígena são as manifestações folclóricas, que prolongam ecos de um passado distante.

[...]

Sobre o legado dos Astecas não podemos furtar-nos de repetir esta bela página de Vaillant, profundo conhecedor e admirador desse povo: “A civilização asteca se extinguiu, mas os Astecas vivem sempre. Tirai do México tudo que é índio puro-sangue e diminuireis sua população em dois quintos; retirai tudo que tem sangue indígena nas veias e mal restará um vigésimo dessa população. A verdadeira face do México é uma face índia. Percorrei o país, lede sua história, podereis discernir aí, como em estratificações sucessivas: o período colonial, a república, o império de Maximiliano, a ditadura do Presidente Diaz e as concepções sociais modernas da Revolução. Mas não vereis a civilização indígena, a não ser em seus filhos que estão em toda a parte e formam verdadeiramente o povo mexicano. Por seu aspecto exterior, como por sua cultura material e social, são europeus, mas em seu espírito subsiste a marca do caráter asteca, assim como nas paredes de suas igrejas subsistem as pedras dos antigos templos pagãos”.

[...]

O tipo físico dos índios e as dezenas de línguas e dialetos ainda falados em algumas regiões do México chamam a atenção dos estudiosos do passado pré-colombiano.

Encerremos estas considerações com as seguintes observações, já antigas, de Vaillant sobre a presença marcante dos Astecas na capital mexicana: Próximo à catedral “uma larga fossa escancarada deixa perceber o ângulo da escadaria do grande templo. A rua que, de leste a oeste, corre por trás da catedral, foi objeto de escavações que proporcionaram miríades de objetos arrancados ao templo pelo furor dos conquistadores.

Zocalo, a grande ‘Plaza de la Constitución’, recobre a antiga praça principal de Tenochtitlán. Os seis metros de espessura de suas fundações são constituídos pelos restos de templos, demolidos pela maior glória de Deus. Quem saberá jamais quantas peças incomparáveis da arte asteca estão enterradas lá? A oeste, o palácio presidencial repousa sobre os antigos pátios do palácio de Montezuma. A pouca distância, ao norte, sobre as paredes do Ministério da Educação Nacional, todo o drama do índio e de sua liberação aparece, nos afrescos tumultuosos devidos ao gênio de Rivera”.

Os antigos Maias estão bem presentes no mundo contemporâneo através de seus descendentes. Morley em sua obra clássica, La civilización maya, lembra os descendentes  modernos dos antigos maias, especialmente os da metade norte da Península de Yucatán que “se assemelham de tal maneira às figuras que aparecem nos monumentos e nas pinturas, que bem poderiam ter servido de modelo para a execução das mesmas”.

Os antigos maias se fazem presentes também através dos diversos dialetos maias ainda falados em regiões do México, da Guatemala, de Honduras e de Belize. Morley, ao focalizar a natureza da língua maia, cita Alfredo Barrera Vasquez sobre a influência da língua maia no castellano: “declara que durante os quatro séculos que o Maia esteve em contacto com o castellano em Yucatán, influiu poderosamente não só no vocabulário deste idioma que se fala no local, mas também em sua lexicografia, morfologia, fonética e sintaxe, enquanto que o espanhol que se fala em Yucatán somente afetou o vocabulário maia pela adição de palavras que não se conheciam anteriormente entre os Maias”.

Os produtos da arte maia que emergiram da floresta tropical, para assombro dos cultores da América pré-colombiana, constituem um riquíssimo legado aos estudiosos da história das artes, que não se cansam de pesquisar e admirar a obra imortal dos gregos da América!

Vários costumes dos antigos Maias sobreviveram ao passar dos séculos e ao contacto com a civilização implantada pelos espanhóis. Vejamos apenas alguns exemplos. Lehmann lembra que um dos ritos dos antigos Maias subsiste entre os Maias lacandones: queimar copal durante as cerimônias. O culto da chuva, anota Hammond, sobrevive ainda na maior parte da área maia. O mesmo autor lembra que foi constatado o uso do calendário maia ainda em nossos dias.

Os Incas deixaram marcas indeléveis nas regiões que outrora dominaram. Lembremos, em primeiro lugar, a presença dos descendentes da população que integrou o império inca. Bushnell sublinha: “Os nobres incas desapareceram há muito, e atualmente, sob a República, a distinção entre os índios e os de sangue misto, os mestiços, é um pouco confusa; mas existem ainda muitas comunidades tipicamente índias, que refletem a tradição dos antigos ayllus, a base da pirâmide da sociedade inca”.

A língua quéchua, a mais importante língua de cultura na América do Sul pré-colombiana, oficializada pelos Incas nos territórios sob seu domínio, ainda é falada em várias regiões: “Na atualidade é falada em toda a região andina do Equador, a Serra do Peru, parte do norte de La Paz e toda a região central e sul da Bolívia, Santiago del Estero, na Argentina e alguns outros lugares das províncias do norte, particularmente em Jujuy” (Ibarra Grasso, Lenguas indígenas americanas, p. 61).

Compreende-se que velhos costumes tenham persistido através das gerações. Assim, por exemplo, “pastores andinos ainda usam uma forma de quipu para fazer a contagem de seus rebanhos...”

E por que não lembrar que o jarro de base cônica e gargalo alto e bojudo conhecido, como aryballus, ainda é usado largamente nos Andes, “porque se torna fácil transportá-lo às costas, com a ajuda de uma corda que passa através das duas pegas de presilha verticais e da pequena espiga abaixo do gargalo; esta pequena espiga está geralmente modelada em forma de cabeça de animal”.

Nas festas de cunho folclórico celebradas em diferentes locais da região andina, outrora ocupada pelos Incas, não é difícil perceber os reflexos distantes da cultura inca, quer na magia do colorido das roupas quer na pintura das máscaras quer nas danças ritmadas pelo som de estranhos instrumentos musicais.

Concluamos mencionando as impressionantes ruínas que restaram emolduradas pelo cenário grandioso da cordilheira e que constituem um perene atestado da magnitude da obra realizada pelos descendentes daqueles imigrantes que inicialmente integraram em situação de inferioridade a Confederação de Cuzco e que com vigor e persistência admiráveis construíram a estrutura político-social de um império que ainda hoje é motivo de espanto e admiração e constitui objeto de profundas pesquisas por parte dos renomados cientistas que se empolgaram pelas realização dos filhos do Sol.


GIORDANI, Mário Curtis. História da América pré-colombiana: Idade Moderna II. Petrópolis: Vozes, 1997. p. 255-259.

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